sexta-feira, 9 de maio de 2014

Filhos de um Deus Maior!



Unknown from Facebook

É hoje o Dia da Mãe!
Uma festa para muitas! Pela presença, pela crença, pela alegria e alento, pela esperança.
Uma dor para outras! Pela ausência e saudade imensa, pela descrença, pela desesperança, pelo abandono e pela indiferença, por tantas razões de desalento!
Ter filhos, fazer filhos parece simples e corriqueiro: uma mulher e um homem unidos por um acto sexual, no momento certo de uma ovulação, e já está! Será assim tão simples e tão corriqueiro? Então porque há quem não os tenha, por mais que tente? E porque há quem os tenha, por mais que não queira, e outros há que deles se desfazem, em gestos (só) aparentemente ligeiros, desapegados e inconsequentes?
Nascer, e Morrer são os momentos mais íntimos e solitários de um ser humano. Nascemos por vontade alheia e Morreremos, SEMPRE, contra a nossa vontade, todos unidos por este destino comum – até ver!  Mas Dar Vida é o ÚNICO ACTO EM QUE PODEMOS INTERCEDER OU NÃO e É PARA SEMPRE! IRREVOGAVEL!
Ao contrário de todas as outras espécies, desse acto, seja por acaso ou fruto de uma vontade explícita, temos consciência e se não dele, das suas consequências. Dar vida é o nosso mais puro acto de egoísmo, seja qual for a justificação - impelidos pelos insondáveis desígnios da continuação da espécie que nos estão gravados no ADN, pela vontade inconformada de prolongarmos o ser, de deixarmos aos vindouros a nossa marca e testemunho de que por aqui passámos ou ainda, por amor ao parceiro.
E porém, ter um filho ou filhos é, são, mais do que genes que se fundem, dividem e multiplicam, ADN que se partilha e repercute! Filhos, são, TÊM QUE SER, fruto de mais do que uma simples “queca” que se dá e pronto, venha o que vier desde que saudável! E se não o for?
Filhos são, serão sempre, filhos! Saudáveis ou não, com 10 dedos certos nos pés e nas mãos, com Sindroma disto ou daquilo, génios hiperactivos, calmos, passivos, deprimidos, violentos, drogados ou até felizes.
Quando olhamos para eles, recém-nascidos ou ao longo dos primeiros anos de vida, seres totalmente dependentes de nós, é impossível não realizarmos que são matéria plástica, que podemos molda-los e condicioná-los a nosso belo prazer. Um filho pode ser muito do que fizermos e do que quisermos - salvo as excepções de doenças graves, congénitas ou adquiridas que não controlamos. Amamo-lo ou não, educamo-lo ou não mas fruto destas variáveis, INFLUENCIAMO-LO em cada dia, paulatinamente, de forma indelével e duradoura.
Se projectarmos o seu futuro, ele será sempre, não no todo mas em grande parte, fruto da nossa influência ou da nossa ausência, da tolerância ou da intransigência, do aconchego ou do abandono, do nosso amor ou desamor.
Mas para uma Mãe, para a maioria das Mães, um filho, seja único ou sejam vários, é sempre um filho ÚNICO, IRREPLICÁVEL,  INSUBSTITUÍVEL! Percebê-mo-lo? Se somos ou fomos Mães, percebemos.
A vida de uma Mulher é uma até ao dia em que é Mãe. A partir daí quase tudo muda: a vida passa a ser vista, planeada, sentida e pressentida, em suma, vivida de forma diversa. Tudo se transforma. Até ao fim dos seus dias, o filho condicionará o seu comportamento, as suas sensibilidades, as suas alegrias e preocupações, desejos, temores e esperanças. Nunca a sua vida voltará a ser, aos seus olhos, à flor da pele ou no seu intimo, igual ao antes daquela vida existir.
Tenha a idade que tiver, constitua família ou não, emigre para o extremo oposto do planeta, UM FILHO SERÁ SEMPRE UM FILHO. Umas lidarão melhor do que outras com a progressão do tempo, com a aceitação do crescimento, com a noção de posse e a reaprendizagem do desapego, com a liberdade e com a necessidade de libertação progressiva, com a responsabilidade e o medo da perda, com a crescente capacidade de partilha com terceiros... OU NÃO, arcando e sofrendo com as consequências dessas variáveis e dessas escolhas.
Mais do que ser Mãe, SENTIR-SE MÃE é algo visceral, latente e permanente. Manifeste-se, cedo ou mais tarde, seja-se nova e imatura ou adulta e independente, madura e experiente, o elo é quase sempre para a vida, indizível.
SER Mãe é transcendência e NÃO O SER, É AUSÊNCIA! SER MÃE PARECE BANAL, condição de SER NORMAL porque faz parte de SER MULHER! E porém, há mulheres que não se sentem mães; e há Mães que se esqueceram de serem mulheres; e há MULHERES que o SÃO e que por mais que o queiram, que o tentem, não foram mães; e outras há que não geraram vida dentro dos seus corpos mas SÃO MÃES DE CORAÇÃO!
Pelo que sou hoje, por tantas outras Mulheres que conheço, e mesmo pelas que desconheço mas que pressinto, vislumbro ou apenas imagino, sei, dentro de mim, que SER MÃE É O SUPREMO ACTO DE CRIAÇÃO!
Por tudo isto, quando uma Mulher perde um filho, mesmo que tenha outros, aquela perda é irrevogável, insubstituível, irreparável, arrasadora.
Hoje não tenho dúvidas: um filho é uma ABSOLUTA DÁDIVA! Um filho é esse ser que gerámos ou criámos, que nos transcende e que nos supera, que supostamente nos resistirá e nos prolongará. E seja ela/ele quem for, se existe um Deus, qualquer filho natural ou adoptado, é, será sempre, FILHO DE UM DEUS MAIOR!

quarta-feira, 9 de abril de 2014

"Nunca te distraias da vida!"

 
 

Há poucos dias partiu desta vida, aos 50 anos, um homem que foi capaz de tocar fundo em muita gente. Era percepcionado das formas mais diversas: arrogante, agressivo, vaidoso, antipático OU fantástico, sedutor, brilhante, magnético! Controverso, irreverente, Amado e Odiado em simultâneo!

Era difícil, para quase toda a gente que com ele contactou, ficar indiferente ao magnetismo do seu olhar, ao sorriso matreiro, ao sentido positivo que emitia, fosse pelas palavras ou pela postura. Muitos ficavam fascinados, outros idolatravam-no, seguiam-lhe o percurso de vida, alguns tornaram-se seus amigos; outros ainda odiaram-no, denegriram-no, chegaram a ameaça-lo! Nada que ele não aprendesse a lidar rapidamente. 

MAIOR DO QUE A VIDA! 

Manuel Forjaz era isto tudo e muito mais! Não o conheci pessoalmente mas tive a sorte de assistir, há uns anos, a uma das suas conferências sobre “Empreendedorismo”. Bebi-lhe as palavras, não tanto por ser um orador fantástico, mas pela pertinência dos argumentos e pela convicção com que transmitia a mensagem. 

Percebi-o então como dono de uma personalidade fortíssima, senhor de uma vontade férrea e com uma natureza dominadora da qual emanava uma luz intensa, de tal forma a sua presença na sala ofuscava a de todos os outros. Presciente, inteligente, voluntarioso, teimoso, energético, dinâmico e extremamente criativo, era daqueles que fazia as coisas acontecerem, empurrava o mundo com a força da sua vontade e mudava-o, porque ousava o impensável. Lutou sem descanso por aquilo em que acreditou, e tinha a desarmante capacidade de transformar a adversidade em oportunidades. 

UM LÍDER! 

Manuel Forjaz era sem dúvida um líder carismático, detentor de uma inata capacidade de convencimento e de sedução. Consciente disso mesmo, usava a sua luz ofuscante para atrair os incautos que se deixavam "enfeitiçar" pelo tremendo sex-appeal que emana desse perfume inebriante que o poder de sedução confere.

Tudo nele parecia acontecer com facilidade, como que por magia. E no entanto, tal como qualquer ser humano, também se enganava, também fez escolhas e opções erradas e como consequência, arrastou outros que nele acreditavam para situações difíceis, e por ter falhado nalguns pontos do percurso, prejudicou e magoou pessoas. Não o fazemos todos nós ao longo do percurso das nossas vidas? 

O SENTIDO DA VIDA

Pediu desculpa a muitos dos que magoou, tentou retratar-se e reparar o mal feito perante os que prejudicou, porque acreditava que "O verdadeiro sentido da vida é sermos honestos connosco próprios e percebermos aquilo que nos faz felizes."

Acreditou na imensa criatividade do ser humano, em cada um de nós, e na capacidade de vencermos os escolhos, de irmos mais além. Era um Homem em constante questionamento e irritava-o sobremaneira a "mansidão" do aceitamento do óbvio, a normalização das vontades e dos sonhos, a submissão ao colectivo: "Se somos todos tão diversos porque queremos quase sempre as mesmas coisas, viajar, ser rico, ser poderoso, ter uma casa grande... porque não um curso de pintura no Louvre, ou conduzir um Ferrari, ir à lua, fazer um curso de costura na Dior, ou até ser taxista?" 

Sermos felizes todos de maneira diferente, ter liberdade e ter alternativas, fazer escolhas, ter dúvidas e abandonar as certezas, sofrer e superar o sofrimento porque há que seguir em frente, deixar o emprego se pudermos e procurar outro que nos faça mais felizes... tudo como resultado de uma aprendizagem permanente. 

MENSAGENS DE ESPERANÇA 

Viver é um estado de constante empreendimento, de procura da felicidade, de questionamento das certezas, um fazer e desfazer permanente; são momentos de profunda dor e de angustia, de luta, de esforço e de coragem, mas temos que acreditar na nossa capacidade de superação e que se hoje tropeçamos e caímos, amanhã seremos capazes de nos recuperarmos e de vencer, e acreditar que o dia de amanhã será melhor, muito melhor. Há que viver intensamente, captar a máxima energia de cada momento porque tudo é transitório, efémero, relativo e sem retorno. Por isso, A VIDA ESTÁ AÍ PARA SER VIVIDA, PLENAMENTE! 

A RETER

Não deixo que a doença me mate os dias! Posso morrer de cancro, mas o cancro não me vai matar!

Aproveitem bem a vida, não se queixem porque todo o sofrimento é relativo e a VIDA ESTÁ AÍ PARA SER VIVIDA!

O que quero fazer no tempo que tenho pela frente? Amar a minha família, estar com os meus amigos, estar com Deus, rir mais, fazer menos, aprofundar a transcendência, curtir o sol e este País fantástico, porque a VIDA É UMA DÁDIVA DIVINA E NÃO A PODEMOS DESPERDIÇAR NEM NOS DISTRAIRMOS DELA.  


Obrigada Manuel Forjaz!
https://www.youtube.com/watch?v=JbtXNMGRyF4https://www.youtube.com/watch?v=JbtXNMGRyF4http://www.youtube.com/watch?v=JbtXNMGRyF4&feature=player_detailpagehttp://www.youtube.com/watch?v=JbtXNMGRyF4&feature=player_detailpage

segunda-feira, 17 de março de 2014

There is magic in the air!

 
Judy Garland - Over the rainbow
 
Nunca vos aconteceu, ao observarem determinadas pessoas, perceberem que elas emitem uma certa luz e que esta está impregnada por uma côr ou por um tom específico e predominante?

Não? Então explico melhor esta ideia. Vivo, tal como quase toda a gente, rodeada por várias pessoas que no meu quotidiano desempenham diferentes papeis, e que de alguma forma contribuem, em maior ou em menor grau, para o meu equilíbrio e bem estar. Porém, algumas há que têm o condão especial de nos marcar, de nos influenciar, e até de nos mudar, de uma forma que muitas vezes só é percebida à posteriori.

Quando penso nelas, percebo que não importa tanto assim a duração do relacionamento estabelecido, mas sobretudo a intensidade do mesmo. Essas pessoas que deixam ou deixaram uma marca indelével na minha vida, são lidas através dessa côr predominante por mim percebida.

Óbviamente esta minha avaliação é uma leitura subjectiva do outro, e a intenção não é qualificá-las como melhores ou piores umas em relacção às outras. A descodificação do outro pela côr só me ajuda, no fundo, a perceber-me melhor.

A magia do pássaro beija-flôr

Há pessoas raras, pessoas que emitem uma luz dourada, quase mágica. Envolve-as uma ligeira poalha que se espalha por quem com elas contacta, atraindo-as, enfeitiçando-as, marcando-as, num minuto apenas ou para sempre.

Tenho a rara sorte - estou convicta - de conhecer dois desses belíssimos seres, tão diversos entre si, e porém, tão semelhantes. Com um deles convivi intensamente numa relação de amor eterno, muito desacordo, alguma revolta e muita partilha. Com o segundo convivo menos frequentemente, numa relação mais solta e galhofeira mas desde o início lhe pressenti essa força interior, única e exclusiva e reconheci-lhe as propriedades da magia de um beija-flôr.

Estranhamente ou talvez não (?) são ambos seres do sexo feminino mas mais do que isso, são intrinseca e verdadeiramente mulheres: sensíveis e inteligentes, ora festivas e travessas como crianças sem tino; ora ponderadas e responsaveis, como adultas convictas das suas escolhas; ora frágeis, angustiadas e depressivas, como adolescentes à procura do seu caminho; ora firmes e poderosas, porque Mães, que se afirmam como rochas inamovíveis perante filhos em crescimento turbulento; ora envolventes e sensuais, emanando o perfume quente da sua sexualidade subliminar, amantes fieis daqueles que elegeram como príncipes únicos e (con)sortes, por partilharem das suas vidas.

São contraditórias só na aparência porque consistentemente coerentes nos actos que praticam, e se por vezes são algo excessivas na defesa das suas convicções, não perdem nem o Norte nem a face, e acalmam os calores da refrega com uma piada ou uma gargalhada.  Têm um forte sentido de proteção da família e dos amigos mas têm horror ao protecionismo chatinho, ao abracinho queriduxo e ternurentuzinho e odeiam  meninos abafadinhos e cheios de birrinhas. Saiam de perto se virem uma sobrancelha arqueada e um sorrisinho mordaz ao cantinho da boca! 

Surpreende-me sempre o seu sentido de justiça e o tentarem manter-se como fieis de balança, apaziguadoras, pacificadoras de ambientes turbulentos, tantas vezes calando fundo as suas dores em prol da paz comum. Desengane-se porém quem as tome por pacifistas ou dóceis, porque não o são. Não há falinhas mansas nem cantigas do "bandido" que as embalem facilmente, porque a esse, já o toparam há muito, com a ajuda de um verdadeiro radar ultrasensível: um sexto sentido premonitório, a raiar o dramático, quase perigoso...  

São companheiras divertidas, senhoras de um sentido de humor fino e apurado com quem é um prazer conviver. Adoram festas e sobretudo máscaras de carnaval, onde exercitam toda a sua criatividade e se travestem de personagens mirabolantes, recriando tiques alheios, capazes de darem fôlego a caricaturas muito diversas e o mais opostas de si próprias. No quotidiano, porém, são algo reservadas e odeiam dar nas vistas! Vá-se lá perceber estas alminhas!!!

Estes seres são, obviamente, imperfeitos, e conscientes disso, não aspiram a uma grama de santidade, pelo contrário, as criaturas não se levam muito a sério, porque a vida é tão curta! Têm um sentido de humor apurado, irreverente, desarmante, quase enervante, e no entanto, são seriíssímas quando assumem compromissos de alma e coração, e sem os apregoarem, levam-nos a cabo sem contemplações!
 
Praticam o bem e exercem a sua generosidade de forma natural e sem alarde, junto de todos aqueles que elegem como protegidos - e são vários - sem esperarem por reconhecimento ou recompensa, apenas porque a sua consciência de seres humanos e de cristãs assim o dita.

Não são vulgares estas duas "pestinhas", longe disso, antes absolutamente especiais, admiraveis, indispensaveis na minha vida.
 
A primeira delas deixou-me, como herança, a sua marca na alma e nos genes. Para sempre! Mais de quarenta anos passados e com tanto mundo revirado, o que guardo é o seu riso fresco e solto, gargalhadas contagiantes que ecoam vivas na memória da infância, tempo mágico e frágil que preservo íntegro, incólume, das agruras do tempo gasto.
 
A segunda dá-me o privilégio da AMIZADE e da CONFIANÇA!
 
A ambas, deixo-lhes aqui o meu obrigada e um pedido:
 
enfernizem-me a vida MAS POUCO!
 
 

domingo, 2 de março de 2014

Flashes de um país raro e cheio de "tesourinhos deprimentes".


"Minha cara amiga, como tens passado? Querias notícias minhas e aqui vão.

Eu, João, profissional de marketing desempregado e actual dono de casa efectivo, deixo-te aqui o meu testemunho de participante numa experiência enriquecedora e inolvidável.

Há cerca de 15 dias iniciei um curso de formação, de caracter obrigatório, proporcionado pelo Centro de Emprego da região. Saí de casa pela fresquinha, sentindo na cara o friozinho cortante daquela manhã de inverno e fui apresentar-me no centro de formação.

Senti-me estranhamente satisfeito por sair de casa à hora a que tantos outros saem para o trabalho, tal como o fiz durante anos. A formação seria a partir dali o meu trabalho, e lá fui entusiasmado apresentar-me: 9 horas, sharp!

Comigo estavam outros 18 convocados(as) com idades variadas, na casa dos 40/60, todos desempregados, tal como eu. Fomo-nos sentando ordeiramente e em silêncio numa sala disposta em U, e quais alunos atinados e obedientes no seu 1º dia de escola, espiávamos desconfiados os parceiros pelo canto do olho enquanto aguardávamos pelo formador.

A receber-nos estava um indivíduo vestido com uma bata branca imaculada, o que me confundiu inicialmente - homem do talho não podia ser, estava demasiado limpo, parecia mais o tipo da farmácia ou até o enfermeiro do Centro de Saúde.

Ao fim de uns minutos e depois de distribuir impressos a cada um, apresentou-se como sendo o formador, que nos acompanharia ao longo de 150 horas, o equivalente a quase dois meses de aulas diárias, das 9h às 14h. De rajada, foi dizendo que o curso tinha como objectivo dotar os formandos de Competências Informáticas Básicas e que…

GELEI AGONIADO! Devia ter ouvido mal, só podia! Eu estava inscrito para um curso de Competências Informáticas Avançadas e produção de sites!!!

O trabalho escraviza...

Em segundos estava instalado o granel, com todos a falarem ao mesmo tempo, num bruuuaaaa ensurdecedor que se agravou quando o enfermeiro, perdão, o formador, caiu na asneira de perguntar: "alguém aqui tem alguma objeção em participar neste curso?" No segundo seguinte o pessoal da pesada arranjou logo motivo para a balda, cada qual mais hilariante que o anterior.

Eu, ainda mal refeito da surpresa, resisti a juntar-me ao coro de protestos, e civicamente abstive-me de qualquer comentário, mas pensei com os meus botões que ou o tipo era parvo de todo ou estava armado ao pingarelho.

Escusado será dizer que fiquei doutorado nos impedimentos de todos os outros, mas o mais interessante foi perceber que iria frequentar, sem apelo nem agravo, um curso para o qual não me inscrevi, e que o homem de bata branca, a quem os meus estimados colegas passaram a tratar por "setor", também não fazia ideia nenhuma porque raio estavam ali pessoas inscritas para um outro curso de formação?! "Amigos, isto é o que tem que ser, tanto para vocês como para mim e podem reclamar junto da entidade competente, mas aconselho-vos a não faltarem ao curso". E, como que para nos acalmar, SORRIU, um sorriso cândido e meigo, irresistível, que me comoveu profundamente!

Explicou então que a balda só era possível com justificação plausível, atestada por entidades competentes e credenciadas, e assim, depois de acenar com a cenoura deu com o pau na tola dos espertos, o desmancha-prazeres!

A formação liberta!

Mais divertido ainda foi observar que o grupo de formandos era composto por gente muito diversa, o que contribuiu para o enriquecimento sócio-cultural do conjunto: uns seis teriam formação média ou superior, outros tantos teriam a 4ª classe ou pouco mais, e os restantes mal sabiam ler e escrever, donde, conseguir que todos preenchessem uma simples folha com os dados pessoais, revelou-se uma tarefa árdua; havia também quem visse mal, como a minha companheira do lado que não imaginava que o seu cartão de cidadão contivesse dados diversos e não apenas o nº do BI, e que para além disso, de tão boazinha tinha emprestado a caneta ao vizinho do lado o que a impedia de preencher efectivamente o impresso, e numa voz maviosa, voltou-se para apelar à minha aparente generosidade: "já agora vizinho, preencha o meu impresso também, porque estou sem caneta, não percebo nada disto e vejo mal..."

Querida amiga, lembrei-me tanto de ti, porque a veia do pescoço inchou, quente de enervamento, espanto e falta de paciência. Pensei "isto não me está a acontecer" e contendo a minha fúria disse-lhe: oiça, eu ajudo-a a preencher o impresso mas será melhor pedir de volta a sua caneta, e talvez pondo os óculos já consiga ler, certo?

Claro que a minha vizinha não me achou graça nenhuma e soltou, num suspiro profundo, a frase que mais me animou: "estamos aqui para sermos uns para os outros e eu não percebo nada disto mas já vi que o menino percebe!" PRONTOS, com esta arrumou comigo, porque a fulana devia ter quase a mesma idade que eu, mas achou que eu tinha ar de menino, e o meu ego exultou de felicidade.

Tudo boa gente.

Escusado será dizer que obviamente havia vários indivíduos para quem a vida é madrasta, entre os quais um desgraçado que vive com 180 euros mensais de apoio social, 60 anos ou mais, coxo mas sem papas na língua, que tirou partido da verve e da lata de "pintas marialva" e monopolizou a cena de princípio ao fim, contando a sua história desde tenra infância até aos dias de hoje, sempre com apartes e sempre na 1ª pessoa - Eu isto, eu aquilo, e isto é uma grande porcaria. "Tou inscrito há canos e agora que não me dá jeitinho nenhum, chamam-me para aprender coisas que não me servem para nada. Sim, tenho portátel mas não funciona e vou trazê-lo para o setôr ver que raio o bicho tem..." Pérolas, verdadeiras pérolas!

Os despojos do dia...

Portanto, absorvo diariamente ensinamentos vários com o objectivo de me formar sobre uma matéria para a qual não tenho o mínimo interesse porque domino, e partilho com os meus colegas da vida airada experiências preciosas, que tal como eles, não percebo "para que raio me servem". Hilariante!

No fim desta sessão de apresentação não pude evitar sentir-me um privilegiado em todos os aspectos. Faço parte de uma pequena elite de uns milhares, cujos pais nos deram a chance de irmos mais longe: estudámos, viajámos, trabalhámos em empresas e participámos em projectos que nos proporcionaram experiências diversas, alargando-nos os horizontes.

Senti que vivo num mundo aparte do qual a maioria deste país ficou à margem, foi excluída pela falácia da igualdade de oportunidades e pela ilusão do acesso fácil ao conforto e ao sucesso. A quimera terminou para quase todos, mas esta maioria da qual "sou vizinha" continuará a estar e a ser excluída, nas próximas décadas, do acesso a esse conforto, a esse sucesso e ao saber, a que têm tanto direito como os outros. A diferença é que, apesar do confronto diário com essa realidade abrupta, os seus protestos de nada lhes servem, tal como de pouco nos serve o curso de formação, inútil porque desajustado, mas que iremos concluir com sucesso e louvor, exibindo orgulhosos o respectivo certificado, que atestará, sobretudo, a nossa infinitamente estúpida capacidade de aceitação de tudo o que não nos interessa.

À saída, eu, João, profissional de marketing desempregado, olhei à minha volta e engoli o enjôo: de nada me servira o saber e experiência acumulados porque era tão náufrago quanto os outros, e estava igualmente ávido de uma tábua de salvação a que me agarrar com unhas e dentes, na esperança de ainda poder safar-me e chegar a bom porto.

Fechei os olhos por segundos e imaginei-me noutro lugar, tentando esquecer a profunda tristeza que me invadira ao deparar-me com este "tesourinho deprimente", um pequenino retrato do pobre país que somos após 40 anos de democracia, pelo qual TODOS SOMOS RESPONSAVEIS.

Quanto ao curso, tenho ainda a esperança de poder aprender alguma coisa, seja o que for.

Haja saúde.

Até breve."

sábado, 7 de dezembro de 2013

Escrevo, logo existo!


Escrever, é soltar as palavras, como quem solta cavalos selvagens que partem num galope desenfreado por vales de liberdade.



Eu escritora me confesso, que por escrever, existo!

Escrevo desde que me lembro, sem tema fixo nem hora marcada, palavras que se agitam diante dos meus olhos numa rebeldia mansa, que saltam de assunto em assunto, correm desenfreadas levando tudo à frente, num crescendo que marca o tempo com o seu ritmo descompassado.

Em criança fiz das palavras os meus brinquedos favoritos, quais berlindes furta-cores que rolava entre os dedos com mestria, chocolates irresistíveis com que me lambuzava, num vício sem pecado que apenas me engordavam o verbo. Na juventude li tudo o que pude, e aprendi que as palavras têm cores, e que tal como as cerejas, dão sabor à vida. Devorava-as num prazer guloso, umas atrás das outras sem parar, vermelhas, redondas, lustrosas, intensas, ora doces, ora amargas, às vezes enjoativas, mas nunca indiferentes!

Como adulta destaco a escrita como algo que me define, parte intrínseca da minha natureza. Sou o que escrevo e escrevo quem sou, porque me descubro, me reinvento e me transformo através desta dualidade que só na aparência é contraditória. 

Saber escrever tem sido a minha meta, a “última dimensão” a alcançar. Escrever bem é dominar com à vontade as palavras, é fazer delas o que quero, ferramentas de bricolage com que construo cenários de fantasia, é calçar sapatinhos de bailarina que rodopiam em pontas ao ritmo incessante do Bolero de Ravel, são pinceis com que registo, em tons fauve, impressões fortes da vida, pintando quadros vibrantes onde reencontro Van Gogh e Gauguin, em amena conversa no Terraço do Café à Noite.

Ser o que escrevo é soltar a avalanche de palavras que me arrebatam o fôlego, como quem solta cavalos selvagens presos em cercas, que anseiam por partir num galope desenfreado por vales de liberdade. É partir sem destino marcado, num eterno desejo de evasão, em busca de novas emoções, novos horizontes e novas palavras. É encontrar-me com heróis de carne e osso, com quem partilho aventuras fantásticas, como o Marinheiro de Malta, com quem dou de caras em Veneza, segui-lo até à Sibéria e ao mar da China, e deixá-lo finalmente em Antígua, levando apenas na bagagem as memórias preciosas da Balada do Mar Salgado, até novo encontro, desta vez, com Santiago, o pescador cubano canceroso de O Velho e o Mar, que me apresenta Hemingway e Martha, que me arrastam para novas aventuras pelo mar das Caraíbas, a bordo do iate Pilar.

Escrever quem sou, é outra coisa! É deter o poder de mostrar aos outros tudo aquilo de que sou capaz enquanto ser humano, para o bem e para o mal. É poder mudar a vida de alguém em poucas palavras, provocar o choro convulsivo no amante que se descobre traído, e o riso de contentamento na jovem a quem dei o primeiro emprego; é dar abrigo a viajantes esgotados pelo cansaço, e desembaraçar-me do meu opositor sem qualquer explicação; é cobiçar o bem alheio sem remorso e de seguida, esfarrapar-me pelo bem-estar do meu amigo; é ser Leonardo, génio da lâmpada, que escreve textos em escrita especular, pondo em perspectiva ideias mirabolantes que mudam drasticamente a percepção do mundo; é criar duendes, fadas e bruxas, pôr os animais a falar num universo mágico de gente pequena, onde o faz de conta é real; é pensar apenas nos meus interesses e virar o Norte contra o Sul, pôr o mundo em guerra e resolver o assunto com o simples carregar de um botão, enquanto sobrevoo Hiroxima à luz ofuscante do clarão, provocado pelo ínfimo eletrão.

Escrever quem sou é ignorar o extremo sofrimento alheio, e celebrar a paz com palavras solenes, criar a Sociedade das Nações, proclamar, alto e bom som, que todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos, ao mesmo tempo que estabeleço novas formas de escravatura; é desenvolver, em simultâneo, a sociedade da abundância e a do desperdício, é promover campanhas gigantescas de solidariedade para os esquecidos da sorte, no deserto africano e em todos os desertos habitados deste mundo! É caminhar, como Bono, por ruas sem nome, na esperança de encontrar o que procuro...

Quem sou afinal?
Sou o que escrevo e escrevo quem sou porque entro na pele de todas as personagens que vivem nos lugares da minha imaginação, estou em todas as paisagens nunca vistas deste mundo fantástico e de outros que hei-de inventar, através das palavras que ainda hei-de descobrir.
Porque sou escritora!
Foto retirada da página

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Viagens - regresso às memórias do futuro.*


                                        "Na rotina dos outros, o lugar da nossa novidade." Times Square, Abril de 2011

Férias, viagens, tempo livre para partir. Simples, não é? Planear o destino da viagem, reservar os hotéis na internet, reunir os guias turísticos, os roteiros de passeios, de lojas, restaurantes e os bilhetes de espetáculos a "não perder", sem esquecer ainda as dicas da Joana que esteve lá há 15 dias.
 
Fazer a contagem decrescente dos dias, na esperança febril de encurtar a distância que nos separa da data da partida, consultar a metereologia, e finalmente, fazer a mala, são, só por si, gestos plenos de um imenso gozo, o de vivermos por antecipação as memórias de um futuro ainda por cumprir, que iremos registar a cada passo, provas da marca da nossa passagem por locais desconhecidos, habitados por gentes ainda sem rosto com quem haveremos de nos cruzar.
 
Eufóricos, nervosos, expectantes, livramo-nos rapidamente e sem remorsos da velha pele que vestimos conformados ao longo do ano, e quais crisálidas em metamorfose acelerada, assumimos confiantes, a nova pele de viajantes, como borboletas airosas no momento do primeiro vôo. Leves que nem plumas ao vento, partimos, deixando para trás as rotinas do nosso quotidiano, gastas de tão usadas, em direcção a um outro ponto de chegada, fazendo da rotina de outros o lugar da nossa novidade. Estranho não é?
 
Afinal, "fazer turismo" envolve alguma complexidade. Procuramos experiências novas, procuramos o outro, esse eterno desconhecido, esse que é diferente de nós e em quem projetamos a nossa própria diferença, sempre na procura da semelhança.
 
Nada de preocupante, porque o que importa mesmo é partir. Fechar a porta da rua com quatro voltas, não vá o diabo tecê-las, apanhar táxi, check-in no aeroporto, engolir comida de plástico no avião, que já nem fingimos que é deliciosa, porque no fundo, Roma vale a missa!
 
Check-out, táxi, planta da cidade, folhetos, horários de visitas de tudo e mais alguma coisa, de preferência sem guia, que não há paciência para o "follow me"! Calças de ganga, ténis, máquina digital, um entra e sai frenético em museus, palácios e monumentos. Pausa para um café, pantomimas de rua no Quai D'Orsay, banhos de sol de inverno num banquinho de uma praça perdida em Veneza, horizontes sem fim em praias de areias douradas e mares azul-turquesa, pistas de Ski e tanta neve...no deserto.
 
Compras, recordações, fotografias. Muitas fotografias, porque é só isso que se partilha com a família e com os amigos, connosco próprios, quando estivermos de novo em casa e já só nos restar recordar as emoções de uma viagem: o último verão nas Seychelles, Nova Iorque fora de horas, a coleção das amostras de shampoos retiradas de casas de banho de hotéis, o passageiro do lugar ao lado que ressonava alto e dava cotoveladas...tudo menos uma carteira roubada em Florença, o carro avariado no meio do Pantanal e o espetáculo musical do ano, perdido, em Berlim! 
 
E pronto, férias terminadas, rotina retomada, a que de repente e por breves instantes até achamos graça. Lar doce lar! Subitamente reencontramos o nosso lugar de sempre, e até parecemos contentes, até trocamos sorrisos cúmplices com o vizinho que connosco se cruza na fila matinal do autocarro.
 
Mas o fim das férias e das viagens é sempre um choque difícil de absorver. Ainda mal refeitos de aterrarmos, de novo, neste planeta que é a realidade quotidiana, achamo-nos cheios de energia para enfrentarmos este "rame rame de casa-trabalho-casa" pelos próximos, longos, infindáveis 365 dias que nos esperam, tentando convencermo-nos que passarão depressa, ao ponto de até o café requentado do bar da estação parecer apetecível.
 
Depois, durante a viagem para o trabalho, damo-nos o direito a nova e breve fuga, para outra viagem. Nada de mais nostálgico e de mais delicioso que saborear, devagar e repetidamente, essas memórias avulsas de experiências vividas, prolongando o gozo do visionamento desse filme interior, do qual somos, a um tempo, realizadores e actores, antecipando já momentos futuros da próxima partida, que virá, sabe-se lá quando, talvez no próximo verão.
 

Memórias de experiências únicas que adoçam o amargor que se instalará devagarinho, pouco a pouco, com o passar dos dias cada vez mais curtos, mais frios e mais tristonhos, que anunciarão mais um inverno, o do nosso descontentamento.
 
* Texto levado ao concurso "2write", publicado a 20/10/2013.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Uma estrela dourada brilha no firmamento


A minha Mãe, Mazy Sacramento Monteiro

 Desde miúda sempre me fascinou observar o céu nocturno e apreciar o brilho dos milhões de estrelas por cima de nós. Com o passar dos anos, esse gesto tornou-se quase compulsivo,  sobretudo em sítios onde a luz artificial está ausente, permitindo que o espectáculo desses seres quase eternos se manifeste em toda a sua grandeza. 

Nos últimos 20 anos, porém, sair de casa para olhar o céu estrelado tornou-se, progressivamente, num ritual absolutamente interior e solitário. Num cantinho da Serra de Grândola, lugar rude e simples que aprendi a amar, afasto-me dos outros e procuro um sítio onde possa ficar a contemplá-las em sossego. 

Algures, lá em cima no firmamento, brilham estrelas a que chamo minhas, seres especiais que me amaram e que amei, que um dia partiram sem que jamais os possa esquecer. Os meus olhos vasculham assim a imensidão prateada e negra, fixando-se num pequeno conjunto de pontos brilhantes que tremulam como pequenos flashes, de onde sobressai uma, cujo brilho dourado se sobrepõe ao das outras, ofuscando-as. Por uma fracção de segundo vejo um tremor ritmado, como um piscar de olhos, e o meu coração aperta-se cá dentro, preso daquele ténue sinal de reconhecimento. Devolvo o piscar de olhos à minha estrela maior, e dedico-lhe o meu sorriso carinhoso.

Em jovem, a minha estrela não era o que se pode dizer uma mulher bonita, mas estivesse onde estivesse, era impossível não dar pela sua presença. Conversadora nata, sabia estar com todos, adaptando na perfeição o tema da conversa aos ouvintes e à ocasião. Alegre, senhora de um sentido de humor subtil, adorava uma "piada picante" da qual se ria com gosto, e muitas vezes ria-se mesmo de si própria, já que era dada a distrações e a pequenos lapsos, como o de trocar frequentemente o nome de algumas pessoas, mas tinha a arte de se sair sempre bem das situações, conquistando os atingidos com tiradas simpáticas e espontâneas, que tinham o condão de os desarmar.   

A minha estrela tinha cabelo negro ondulado, "rebelde e teimoso" segundo a própria, olhos castanhos brilhantes e expressivos, boca de lábios cheios bem desenhados, que o baton vermelho destacava. Sendo mais alta do que a média das mulheres com quem se dava - a mim parecia-me sempre altíssima, ainda por cima porque usava saltos altos - tinha uma fisionomia elegante com "cinturinha de vespa" de que sabia tirar partido, vestindo peças simples mas com feitios e cores que a favoreciam, "porque tinha bom gosto".

Gostava de festas que se prolongassem pela noite fora e como boa dançarina, fazia o gosto ao pézinho e ficava feliz quando o acompanhante não tinha "pé de chumbo", como o meu Pai. Era-lhe fácil fazer amigos, mas era fiel a um "grupo duro" com quem se dava quase diariamente desde há longos anos, e com quem nunca a ouvi ter qualquer dissonância, apesar de os seus membros terem idades muito diversificadas. Os locais desse convívio intenso eram as casas uns dos outros, e não era preciso ocasião especial para se encontrarem, já que havia o hábito de tomar um "drink" ao final da tarde depois do trabalho, de sair após o jantar para tomar café e de promoverem jantares aos sábados. 

A minha estrela tinha mão para a cozinha mas era ainda melhor doceira. Fazia de tudo, desde um simples pudim de chocolate, à divina tarte de amêndoa e ovos moles, ao bolo de ananás caramelizado, fora o que inventava em cima da hora, quando as receitas não lhe saiam como queria, socorrendo-se de "pequenos truques" que começavam por disfarçar o desastre e acabavam, geralmente, por serem apresentados como "especialidades do Algarve", isto ainda antes de choverem os elogios àquela delícia! 

Eu e os meus irmãos crescemos a ouvir falar em "Charlotes, Chifons, Rocamboles, Sorvetes, Marquises e Bavaroises", divertindo-nos com os nomes "chiques" de receitas do Pantagruel e da Banquete, da Tia Anita e da Avó Esther. Sempre que havia bolo pedíamos que nos chamasse para rapar, e de colheres em punho, subíamos para cima de bancos para controlarmos a quantidade de massa que sobrava, sobretudo no Bolo Mármore, nosso favorito, porque iamos comendo, à vez, um pedacinho de massa branca e outro de massa de chocolate, acabando sempre com a cara, o cabelo e camisola todos sujos. 

Esta minha estrela brilhante tinha a pele branca e macia, mãos lindas com dedos longos de pianista, as unhas bem tratadas e sempre impecáveis, pintadas de laranja forte ou vermelho. Nos dias de festa, andava atrás dela enquanto se vestia, maquilhava e penteava, suspensa dos seus gestos simples e da alegria que dela emanava. Pedia-me para lhe pôr o colar, e fosse ele qual fosse, ficava-lhe sempre a "matar", e aos meus olhos de criança, parecia-me sempre uma raínha, pronta a entrar em cena pela mão do seu rei. 

A minha estrela maior cativava os outros com a sua simplicidade e franqueza, sem poses estudadas e sem gestos teatrais, desarmando tudo e todos com a sua gargalhada cristalina, uma das marcas imorredoiras e memoráveis da sua personalidade vibrante. Saber rir com gosto era-lhe intrínseco, e o som dessa gargalhada fazia parte integrante do seu charme inesquecível.

Depois a vida mudou, e encarregou-se de lhe esmorecer a força, a energia e a alegria, fruto das perdas sucessivas que viveu. De degrau em degrau faltaram-lhe as âncoras, e desceu aos infernos: primeiro a saída definitiva da terra amada, depois a morte do Pai, seu companheiro de sempre, e numa reviravolta insuspeitavel do destino, sofreu o derradeiro golpe, o choque brutal, súbito e irreparavel da morte do filho mais novo com 24 anos.

Até pouco antes do fim permaneceu estoica, sempre generosa para com os outros, esquecendo-se de si própria apesar do sofrimento físico e moral, porque na sua lógica, havia sempre alguém que sofria mais, que precisava de amparo e de uma palavra de esperança, quando para ela, toda a esperança já se fora. 

A generosidade era a faceta intrínseca e inata da minha estrela maior, essa propriedade de carácter que a tornava "luminosa" e que a fez ser admirada por familiares, amigos e colegas, criando laços que perduraram vida fora, e que ainda hoje se mantêm vivos na memória e no coração de quem teve a sorte de a conhecer.

Esta estrela brilhante que ofusca as outras é a minha Mãe. Tento seguir no encalço dos seus passos, reproduzir os seus ensinamentos, guiar-me pela sua luz, mas nunca imitá-la porque o que é genuino não se copia.

Obrigada por tudo, minha estrela brilhante, mas sobretudo pelo privilégio que me foi concedido por ter-te tido como Mãe.